Fala comigo. Quero ouvir o som da sua voz. Inconfundível.
Suave. Fala o meu nome. Imaginar que você me conhece como mais ninguém. Só você
lê o que falo com os olhos. Só você escuta o que não digo. Nosso silêncio tem
trilha sonora. A que escuto enquanto observo você.
Eu conheço você. Quase todos os dias. Quase sempre no
mesmo horário. Quase digo olá. Mas não quero sua amizade. Não quero dizer olá.
Não quero abrir a porta para algo que não sei se tenho forças para encerrar.
Mas preciso desse sonho. Preciso olhar.
Sua mão brilha como a minha. Sinto ciúmes. Sinto inveja.
Queria ter 10 anos menos e não ligar para isso. Pego um livro pra ler. Vou
esquecer você. Melhor sair agora e caminhar. Saio quase correndo, esbarro em
várias pessoas. Tento me refugiar dos meus próprios pensamentos.
Chego à calçada. Ofegante. Paro para respirar a brisa que
vem do mar. Sinto saudades de sentir areia nos pés. Gelada. Macia. Preciso
fazer isso mais vezes. Por alguns minutos sinto vontade de rir dos meus
próprios medos. Medo de sentir prazer. Não faria o mesmo por mim. Abriria portas
e janelas. Trocaria cartões. Marcaria um encontro. Sou uma criatura tola,
patética.
- Senti inveja de você e resolvi sair do engarrafamento
também. Qual a vantagem de morar no Rio e não molhar os pés no mar em plena
segunda feira à noite?
Ri tão forte que arranhei a garganta. Era real.
Aproximou-se e me disse seu nome, esperando que eu dissesse o meu também. Mas
não disse. Só sorri. Não desviou o olhar. Nem eu. Segundos parecem horas. Olho no olho. Parei de ouvir o som ao redor. Já
estava em silêncio por tempo demais. Aproximou-se. Perto demais.
A porta estava aberta. Agora era só sair. Como uma
caminhada leve antes do jantar. Não seria nada sério se não tivesse sentido
cada centímetro do meu corpo tão vivo depois daquele beijo.