domingo, 2 de março de 2014

A Caixa

Era o dia do seu aniversário. Tinha planejado dormir até tarde mas teve seus planos interrompidos pelo barulho desagradável do interfone.

- Tem entrega aqui pra senhora.

- Entrega de que?

- Sei não senhora. Uma caixa grande mesmo. Pode subir?

- Claro que não. Não sei quem é. Deixa aí que eu pego quando sair mais tarde.

- Não dá não. A caixa é grande.

- Então coloca no elevador e aperta o número do meu andar. Eu pego aqui.

Não queria descer de camisola e não estava com a menor vontade de trocar de roupa tão cedo. Apesar de ter acordado antes da hora, foi agradável ver pela janela que o dia prometia ser de sol. Colocou o roupão e foi para a porta do elevador esperar o tal presente.

Quando o elevador chegou tomou um susto. Era realmente uma enorme caixa vermelha, com um laço de fitas lindo em cima. Estava esperando algo mais convencional, como uma cesta de café da manhã. Mas aquela caixa fazia promessas. Levou correndo para dentro de casa.

Olhou por alguns segundos antes de desfazer o laço. Duvidou que seu namorado pudesse enviar um presente daqueles. Teve certeza quando encontrou o cartão: “Não vejo a hora de te encontrar hoje a noite. Você é inesquecível.”. Maurinho estava na Europa fazendo um curso a dois meses e sua volta só estava prevista para duas semanas depois. Não era dele. Tinham se falado pelo computador na noite anterior. Ele fez questão de dar parabéns a ela a meia noite. Gesto carinhoso apesar de ela desconfiar que ele quisesse mesmo era saber se ela estaria em casa de noite ou não. Inútil. Ela saiu logo depois com suas amigas de infância, que jamais deixariam que ela ficasse em casa justo na noite do aniversário. E sempre saiam depois da meia noite, porque aniversário a gente comemora no próprio dia, independentemente do dia da semana.

Dentro da caixa tinham uma garrafa de champagne com duas taças, uma caixa de bombons finos, uma peruca ruiva, lingerie fina vermelha, uma capa bege daquelas de filme noir francês e um aparelho de GPS. Era um convite muito bem elaborado. Quando ligou o aparelho, ele indicava direitinho o local onde deveria ir. Já estava tudo programado. Uma mensagem dizia o horário em que deveria chegar: 21:48 da noite. Quem marca um encontro num horário quebrado desses?

Ficou olhando para a caixa e pensando se não deveria simplesmente guardar os objetos para uma festinha particular quando o Maurinho voltasse. Mas a curiosidade era muito grande para saber o que tinha lá nesse lugar. Algum tarado pervertido a esperava certamente, vestindo apenas a peruca, roupa de baixo e a tal capa. Achou a idéia maravilhosa. Certamente seu namorado jamais pensaria em algo assim, tão instigante. Ele não era chegado a fetiches. Nem para lingerie muito sofisticada ele dava muita bola.

            - O que importa é o recheio, meu amor. Não dou a mínima se você está vestindo calcinha bege ou cinta-liga, desde que saia o mais rápido possível para eu ver o que tem embaixo.

Ele tinha outras frases clássicas também que deixavam Cíntia maluca.

            - Quando investem muito na alegoria é porque o samba enredo é fraco.

O que ele queria dizer com isso? Com o tempo ela se acostumou e passou até a gostar da forma simples e direta dele. Mas aquela caixa era uma escola de samba inteira, todos os fetiches juntos. Resolveu ligar para uma amiga para deixar as coordenadas. Se ela não ligasse até às onze da noite para dizer que estava tudo bem, ela podia chamar a polícia e mandar começar as buscas.

            - Você não pode ir sozinha. E se lá nesse lugar tiver um maníaco, um tarado, um serial killer?
            - Ele tem estilo pelo menos. A garrafa que ele mandou custa mais de dois mil reais. Eu pesquisei na Internet.

            - Cíntia, você já é grande e vacinada. Não vou ficar aqui te colocando medo, até porque estou morrendo de curiosidade que nem você. Mas já pensou no caso do cara na hora que abrir a porta ver que não é a mulher que ele convidou e bater a porta na sua cara? Pior! Mandar você devolver tudo, lingerie, capa, peruca, e mandar você voltar pra casa pelada da silva? Pensa só!

         - Tá bom. Eu vou levar uma roupa extra numa bolsinha.

         - Leva dois celulares. Um na bolsinha e outro no bolso da capa. É daquele estilo Europeu mesmo, amiga? Ai que chique... tira uma foto antes de sair e me manda!

            - Mando sim, Jô. Beijos.

E assim fez Cíntia. Passou o dia se arrumando para o evento. Foi no salão fazer unhas, cabelo, depilação, massagem e tudo mais que lembrou que pudesse fazer ela ficar irresistível. Chegou em casa e se arrumou com a tal peruca ruiva e se maquiou como uma diva de cinema. Olhou-se no espelho depois de toda arrumada e se sentiu linda e sexy como nunca. Arrematou com o seu melhor perfume e saiu para pegar o carro. Não se esqueceu de levar a garrafa de champanhe e as duas taças na maletinha chique em que vieram e uma bolsinha de mão charmosa com um vestido minúsculo e calcinha para o caso de ser expulsa pelada!

            - Esse carro aí é da Dona Cíntia, moça! – gritou o garagista quando viu a ruiva abrir o carro na garagem.

            - Sou eu, Zé!

            - Dona Cíntia?

            - Estou indo a uma festa a fantasia. Abre logo a porta da garagem. Estou com pressa.
Nunca tinha dirigido com GPS ligado e achou um tanto irritante ter que ficar seguindo instruções de uma máquina para dirigir. Lembrava muito o seu pai quando começou a dirigir o carro dele logo que tirou carteira.

            - Tá chegando. É pra virar a direita. Reduz. Tá rápido. Tá chegando. Reduz, filha!

            - Eu tô reduzindo! Que irritante!

            - Porque você tem que frear tão em cima do carro da frente!

            - Argh!

Lembrar do pai não foi uma boa coisa naquele momento. Ficou pensando no que ele falaria se soubesse que a filha estava vestida de puta naquela hora da noite, durante a semana, para ir ao encontro de um possível psicótico maníaco. Pensou em voltar, mas jamais conseguiria dormir novamente com a dúvida. Tinha que descobrir quem era aquele cara.

Chegou ao local às 21:37. Era a portaria de um prédio de luxo. Estranhou quando o segurança do local retirou um cone da calçada e disse que a vaga estava reservada para ela. Bem em frente ao prédio.

            - Espere um pouco no carro. Ainda faltam uns 10 minutos para a senhora poder entrar.

O frio na barriga ia aumentando. Ele deveria ser como aquele ator do filme “Proposta Indecente”, um milionário mimado. No filme pelo menos a atriz topava o programa por um milhão de dólares. Ela estava indo de graça, só pela aventura.

            “Nossa! Minha vida deve estar mesmo um tédio de doer para eu topar uma coisa dessas.” – pensou Cíntia.

Já estava novamente pensando em voltar para casa, ligando o carro quando o mesmo segurança se aproximou e disse que ela já poderia entrar no prédio.

            - Cobertura, Senhorita. Pode subir.

Entrou no elevador olhando para baixo, com vergonha de ser reconhecida por alguém. Depois pensou que talvez fosse bom olhar bem diretamente para alguma câmera para o caso de ser morta e alguém tentar reconhecer ela pelas imagens.

Ficou parada por alguns segundos na frente da porta do apartamento. Respirou fundo. Olhou no relógio de pulso. Estava pontualmente no local designado. Resolveu tirar o relógio e colocar na bolsa. Não combinava com a lingerie. Tocou a campanhia.

O silêncio absoluto vindo de dentro do apartamento comia Cíntia por dentro. O que deveria esperar? Um homem alto, elegante e sexy, abrindo a porta com cara de “Eu te quero agora”, babando de desejo por ela. Seria paixão a primeira vista. Uma despedida da vida de solteira em grande estilo. A maçaneta girou e...

            - SURPRESAAAAAA!!!!!!!


            “Filhos da Puta...” – pensou. Mas não falou. Apenas sorriu e fez cara de esperta do tipo “Eu imaginei!”. Mas não tinha nem chegado perto de imaginar uma coisa dessas. Engoliu a seco e foi encher a cara de champanhe na sua festa.