(Parte da Antologia “O
escritor que nunca viu e outras histórias”)
- Posso confiar em você, não
posso?
- Claro que pode. Tudo o que
me disser será retratado no livro com nomes alterados. A não ser que você conte
a alguém, a sua identidade será preservada.
- Quero ter essa memória
registrada. Não me pergunte por que, mas eu preciso saber que o que aconteceu
comigo será lido por outras pessoas. Que as minhas lembranças não morrerão
comigo. Mas não quero magoar ninguém.
Aquela era uma oportunidade
de ouro para Carlos. Há anos estava procurando uma boa história para escrever
um romance. E aquele senhor idoso, que passava seus dias e boa parte das noites
desenhando no banco do aeroporto internacional do Rio, certamente tinha algo de
muito interessante para contar.
- Podemos começar a gravar
então?
- Sim, claro. Você quer um
café? Eu penso melhor quando estou tomando café.
- Eu aceito sim. Obrigado
por me convidar para conversar na sua casa.
- Que nada, meu filho. Eu
nunca recebo ninguém. A casa é simples, mas é um prazer receber gente aqui.
E era uma casa simples
mesmo, no final de uma vila que resistia bravamente a expansão imobiliária da
zona sul no Rio. Muitas fotos por todo o lugar, a maior parte já amareladas
pelo tempo, de uma mulher muito bonita.
- Ela era muito especial. Eu
guardo na memória todos os traços do seu rosto, o perfume, o som da risada...
Conheci aqui no Rio mesmo. Foi tudo muito rápido e intenso.
- É o rosto que você desenha
todos os dias no aeroporto, não é?
- Sim. Foi o último lugar
aonde nos vimos. Ela foi para se acertar com o marido, se separar dele
legalmente e voltar para vivermos juntos. Mas ela nunca voltou. Eu quase
enlouqueci. Viajei para a Alemanha, procurei a polícia, espalhei cartazes,
tudo... É como se ela nunca tivesse existido. Se não tivesse todas essas
fotografias eu pensaria que ela foi uma ilusão.
- Como vocês se conheceram?
- Na praia de Copacabana. Eu
estava sentado na areia num final de tarde, pensando em como a minha vida era
chata, monótona, fria. Ela surgiu na minha frente e simplesmente perguntou se
poderia sentar ao meu lado para olhar o mar. Linda. Eu devo ter demorado alguns
minutos até responder alguma coisa a ela.
Carlos olhou novamente para
o porta-retratos que estava na mesa ao lado. Queria lembrar exatamente daquele
rosto. Ela dava uma personagem e tanto. Parecia ser alta, cabelos longos e
ruivos, rosto de traços fortes. Poderia ser uma espiã daqueles filmes de
Hollywood. Sedutora e perigosa. O livro seria um suspense. Quem é essa mulher
misteriosa?
- Eu deixei tudo para ficar
com ela. Larguei minha mulher, minha casa, meus filhos, tudo! Durante dois
meses eu vivi o que jamais imaginei existir na vida real. Ela invadiu a minha
vida. E eu tinha certeza de que jamais me arrependeria de nada se estivesse do
lado dela.
- O que ela fazia no Brasil?
- Ela disse que queria ser
livre, conhecer o mundo, tinha recebido uma herança dos pais e que com ela
poderia se separar com segurança do marido. Antes de vir ao Brasil tinha
passado por outros países. Mas disse que se apaixonou por mim. Queria que eu a
seguisse pelo mundo.
Um romance. Escreveria sobre
esse amor incrível, apaixonado, louco. Um homem comum, apaixonado por uma
mulher sedutora, que vê sua vida organizada e pacífica transformada de uma hora
para outra por essa paixão.
- Mas ela precisou voltar
antes para a Alemanha.
- Sim. Ela disse que
precisava se separar de vez. Resolver alguns detalhes de bens que tinha. Mas
disse que voltaria. E eu fiquei esperando. Nunca mais recebi notícias. Imaginei
que ela tivesse sido morta pelo marido, por isso fui até lá procurar por ela na
cidade onde disse que morava. Jamais encontrei nenhum sinal dela. O nome que eu
tinha não existia em nenhum cartório. Nada. Ela desapareceu. Mas nunca da minha
mente. Eu não conseguia mais dormir, comer, trabalhar...
- E a sua família? Eles
sabiam do que tinha acontecido?
- A minha ex-mulher sim. Eu
contei tudo a ela. Eu saí de casa para alugar um apartamento para a minha vida
nova. Ficaríamos mais um ano no Brasil, eu venderia a minha empresa e depois
seríamos livres pelo mundo. Eu fui egoísta, insensível... Mas estava totalmente
drogado pela paixão.
Um drama. Um homem
arrependido, sofrendo a perda de tudo o que levou a vida inteira para
construir. Os dias que se seguiram depois que ela se foi. O sofrimento, as
alucinações e pensamentos que levariam o personagem ao fundo do poço, a
tentativa de suicídio, a loucura real. Carlos podia sentir as lágrimas das
leitoras mais sensíveis rolando pelas páginas do seu livro.
- Com raiva, a minha
ex-mulher nunca me deixou ficar próximo dos meus filhos. São dois. Ela disse a
eles que eu tinha morrido. E eu acho que morri mesmo. Não tinha forças para
brigar com ela. Também não queria que me vissem como fiquei. Durante os anos que
se seguiram, eu me transformei aos poucos em um mendigo fedorento. Bebia todos
os dias até esquecer quem eu era, onde estava. Acordava frequentemente em algum
banco por aí.
- Como você saiu dessa?
- Meu filho me encontrou. O
mais velho. Ele descobriu que eu não tinha morrido e me procurou. Já tinham se
passado 20 anos. Ele me perdoou, mas ainda estamos nos conhecendo melhor. Eu
resolvi tentar de novo recuperar parte da minha dignidade. Por ele. Devo isso a
eles. Mas minha obsessão por ela não terminará nunca. Desenho o rosto dela pelo
menos uma vez por dia e deixo nos bancos do aeroporto. Deixo a imagem dela onde
ela me deixou, e volto para tentar retomar a minha vida do ponto onde ela me
invadiu.
Auto Ajuda? Hmmm... Melhor
não.
- Quer mais um café, meu filho?
- Não, obrigado. O senhor
está se sentindo bem?
Carlos percebeu que o homem
tremia bastante. Estava muito pálido. Começou a apresentar sinais de que não
conseguia mais falar direito.
- Acho melhor chamar uma
ambulância!
Carlos abriu a porta da casa,
chamou os vizinhos. Vários vieram correndo ver o que estava acontecendo.
Enquanto ligava para uma ambulância, várias pessoas falavam ao mesmo tempo
dentro da casa. Uns pegavam um copo de água, outros deitavam o senhor no sofá.
Quando a ambulância chegou já era tarde demais. Ele já estava morto.
Um vizinho telefonou para o
filho, que chegou rapidamente na casa. Carlos observou o desespero do rapaz,
que sacudia o pai como se ele estivesse apenas dormindo. Falava frases soltas
entrecortadas pelo soluço. "Você me deve explicações", "Não pode
sumir de novo assim", "Isso não pode ter acontecido". Pensou em
dizer algo, talvez tentar consolar o rapaz. Mas preferiu se afastar.
Olhou novamente a foto da
mulher misteriosa. Retirou-a discretamente do porta-retratos. Precisava levar
com ele aquela foto. Aquele olhar desafiador seria a inspiração para aquele
romance/drama/mistério que ele iria escrever. Já tinha tudo resolvido na sua
cabeça. Mesmo que não conseguisse uma editora grande, publicaria ele mesmo
aquela história.
Era uma história que
precisava ser contada. Devia isso ao defunto.