quinta-feira, 3 de abril de 2014

Depois daquele beijo

Chegue mais perto. Eu não mordo. Não é pecado querer te beijar, é? Mas não vou. Vou só te olhar. Vou aproveitar esse momento perto de você. Imaginar o cheiro da sua pele e o gosto da sua boca. Vou guardar a sete chaves o primeiro beijo que não vou te dar.

Fala comigo. Quero ouvir o som da sua voz. Inconfundível. Suave. Fala o meu nome. Imaginar que você me conhece como mais ninguém. Só você lê o que falo com os olhos. Só você escuta o que não digo. Nosso silêncio tem trilha sonora. A que escuto enquanto observo você.

Eu conheço você. Quase todos os dias. Quase sempre no mesmo horário. Quase digo olá. Mas não quero sua amizade. Não quero dizer olá. Não quero abrir a porta para algo que não sei se tenho forças para encerrar. Mas preciso desse sonho. Preciso olhar.

Sua mão brilha como a minha. Sinto ciúmes. Sinto inveja. Queria ter 10 anos menos e não ligar para isso. Pego um livro pra ler. Vou esquecer você. Melhor sair agora e caminhar. Saio quase correndo, esbarro em várias pessoas. Tento me refugiar dos meus próprios pensamentos.

Chego à calçada. Ofegante. Paro para respirar a brisa que vem do mar. Sinto saudades de sentir areia nos pés. Gelada. Macia. Preciso fazer isso mais vezes. Por alguns minutos sinto vontade de rir dos meus próprios medos. Medo de sentir prazer. Não faria o mesmo por mim. Abriria portas e janelas. Trocaria cartões. Marcaria um encontro. Sou uma criatura tola, patética.

- Senti inveja de você e resolvi sair do engarrafamento também. Qual a vantagem de morar no Rio e não molhar os pés no mar em plena segunda feira à noite?

Ri tão forte que arranhei a garganta. Era real. Aproximou-se e me disse seu nome, esperando que eu dissesse o meu também. Mas não disse. Só sorri. Não desviou o olhar. Nem eu. Segundos parecem horas. Olho no olho. Parei de ouvir o som ao redor. Já estava em silêncio por tempo demais. Aproximou-se. Perto demais.

A porta estava aberta. Agora era só sair. Como uma caminhada leve antes do jantar. Não seria nada sério se não tivesse sentido cada centímetro do meu corpo tão vivo depois daquele beijo.

domingo, 2 de março de 2014

A Caixa

Era o dia do seu aniversário. Tinha planejado dormir até tarde mas teve seus planos interrompidos pelo barulho desagradável do interfone.

- Tem entrega aqui pra senhora.

- Entrega de que?

- Sei não senhora. Uma caixa grande mesmo. Pode subir?

- Claro que não. Não sei quem é. Deixa aí que eu pego quando sair mais tarde.

- Não dá não. A caixa é grande.

- Então coloca no elevador e aperta o número do meu andar. Eu pego aqui.

Não queria descer de camisola e não estava com a menor vontade de trocar de roupa tão cedo. Apesar de ter acordado antes da hora, foi agradável ver pela janela que o dia prometia ser de sol. Colocou o roupão e foi para a porta do elevador esperar o tal presente.

Quando o elevador chegou tomou um susto. Era realmente uma enorme caixa vermelha, com um laço de fitas lindo em cima. Estava esperando algo mais convencional, como uma cesta de café da manhã. Mas aquela caixa fazia promessas. Levou correndo para dentro de casa.

Olhou por alguns segundos antes de desfazer o laço. Duvidou que seu namorado pudesse enviar um presente daqueles. Teve certeza quando encontrou o cartão: “Não vejo a hora de te encontrar hoje a noite. Você é inesquecível.”. Maurinho estava na Europa fazendo um curso a dois meses e sua volta só estava prevista para duas semanas depois. Não era dele. Tinham se falado pelo computador na noite anterior. Ele fez questão de dar parabéns a ela a meia noite. Gesto carinhoso apesar de ela desconfiar que ele quisesse mesmo era saber se ela estaria em casa de noite ou não. Inútil. Ela saiu logo depois com suas amigas de infância, que jamais deixariam que ela ficasse em casa justo na noite do aniversário. E sempre saiam depois da meia noite, porque aniversário a gente comemora no próprio dia, independentemente do dia da semana.

Dentro da caixa tinham uma garrafa de champagne com duas taças, uma caixa de bombons finos, uma peruca ruiva, lingerie fina vermelha, uma capa bege daquelas de filme noir francês e um aparelho de GPS. Era um convite muito bem elaborado. Quando ligou o aparelho, ele indicava direitinho o local onde deveria ir. Já estava tudo programado. Uma mensagem dizia o horário em que deveria chegar: 21:48 da noite. Quem marca um encontro num horário quebrado desses?

Ficou olhando para a caixa e pensando se não deveria simplesmente guardar os objetos para uma festinha particular quando o Maurinho voltasse. Mas a curiosidade era muito grande para saber o que tinha lá nesse lugar. Algum tarado pervertido a esperava certamente, vestindo apenas a peruca, roupa de baixo e a tal capa. Achou a idéia maravilhosa. Certamente seu namorado jamais pensaria em algo assim, tão instigante. Ele não era chegado a fetiches. Nem para lingerie muito sofisticada ele dava muita bola.

            - O que importa é o recheio, meu amor. Não dou a mínima se você está vestindo calcinha bege ou cinta-liga, desde que saia o mais rápido possível para eu ver o que tem embaixo.

Ele tinha outras frases clássicas também que deixavam Cíntia maluca.

            - Quando investem muito na alegoria é porque o samba enredo é fraco.

O que ele queria dizer com isso? Com o tempo ela se acostumou e passou até a gostar da forma simples e direta dele. Mas aquela caixa era uma escola de samba inteira, todos os fetiches juntos. Resolveu ligar para uma amiga para deixar as coordenadas. Se ela não ligasse até às onze da noite para dizer que estava tudo bem, ela podia chamar a polícia e mandar começar as buscas.

            - Você não pode ir sozinha. E se lá nesse lugar tiver um maníaco, um tarado, um serial killer?
            - Ele tem estilo pelo menos. A garrafa que ele mandou custa mais de dois mil reais. Eu pesquisei na Internet.

            - Cíntia, você já é grande e vacinada. Não vou ficar aqui te colocando medo, até porque estou morrendo de curiosidade que nem você. Mas já pensou no caso do cara na hora que abrir a porta ver que não é a mulher que ele convidou e bater a porta na sua cara? Pior! Mandar você devolver tudo, lingerie, capa, peruca, e mandar você voltar pra casa pelada da silva? Pensa só!

         - Tá bom. Eu vou levar uma roupa extra numa bolsinha.

         - Leva dois celulares. Um na bolsinha e outro no bolso da capa. É daquele estilo Europeu mesmo, amiga? Ai que chique... tira uma foto antes de sair e me manda!

            - Mando sim, Jô. Beijos.

E assim fez Cíntia. Passou o dia se arrumando para o evento. Foi no salão fazer unhas, cabelo, depilação, massagem e tudo mais que lembrou que pudesse fazer ela ficar irresistível. Chegou em casa e se arrumou com a tal peruca ruiva e se maquiou como uma diva de cinema. Olhou-se no espelho depois de toda arrumada e se sentiu linda e sexy como nunca. Arrematou com o seu melhor perfume e saiu para pegar o carro. Não se esqueceu de levar a garrafa de champanhe e as duas taças na maletinha chique em que vieram e uma bolsinha de mão charmosa com um vestido minúsculo e calcinha para o caso de ser expulsa pelada!

            - Esse carro aí é da Dona Cíntia, moça! – gritou o garagista quando viu a ruiva abrir o carro na garagem.

            - Sou eu, Zé!

            - Dona Cíntia?

            - Estou indo a uma festa a fantasia. Abre logo a porta da garagem. Estou com pressa.
Nunca tinha dirigido com GPS ligado e achou um tanto irritante ter que ficar seguindo instruções de uma máquina para dirigir. Lembrava muito o seu pai quando começou a dirigir o carro dele logo que tirou carteira.

            - Tá chegando. É pra virar a direita. Reduz. Tá rápido. Tá chegando. Reduz, filha!

            - Eu tô reduzindo! Que irritante!

            - Porque você tem que frear tão em cima do carro da frente!

            - Argh!

Lembrar do pai não foi uma boa coisa naquele momento. Ficou pensando no que ele falaria se soubesse que a filha estava vestida de puta naquela hora da noite, durante a semana, para ir ao encontro de um possível psicótico maníaco. Pensou em voltar, mas jamais conseguiria dormir novamente com a dúvida. Tinha que descobrir quem era aquele cara.

Chegou ao local às 21:37. Era a portaria de um prédio de luxo. Estranhou quando o segurança do local retirou um cone da calçada e disse que a vaga estava reservada para ela. Bem em frente ao prédio.

            - Espere um pouco no carro. Ainda faltam uns 10 minutos para a senhora poder entrar.

O frio na barriga ia aumentando. Ele deveria ser como aquele ator do filme “Proposta Indecente”, um milionário mimado. No filme pelo menos a atriz topava o programa por um milhão de dólares. Ela estava indo de graça, só pela aventura.

            “Nossa! Minha vida deve estar mesmo um tédio de doer para eu topar uma coisa dessas.” – pensou Cíntia.

Já estava novamente pensando em voltar para casa, ligando o carro quando o mesmo segurança se aproximou e disse que ela já poderia entrar no prédio.

            - Cobertura, Senhorita. Pode subir.

Entrou no elevador olhando para baixo, com vergonha de ser reconhecida por alguém. Depois pensou que talvez fosse bom olhar bem diretamente para alguma câmera para o caso de ser morta e alguém tentar reconhecer ela pelas imagens.

Ficou parada por alguns segundos na frente da porta do apartamento. Respirou fundo. Olhou no relógio de pulso. Estava pontualmente no local designado. Resolveu tirar o relógio e colocar na bolsa. Não combinava com a lingerie. Tocou a campanhia.

O silêncio absoluto vindo de dentro do apartamento comia Cíntia por dentro. O que deveria esperar? Um homem alto, elegante e sexy, abrindo a porta com cara de “Eu te quero agora”, babando de desejo por ela. Seria paixão a primeira vista. Uma despedida da vida de solteira em grande estilo. A maçaneta girou e...

            - SURPRESAAAAAA!!!!!!!


            “Filhos da Puta...” – pensou. Mas não falou. Apenas sorriu e fez cara de esperta do tipo “Eu imaginei!”. Mas não tinha nem chegado perto de imaginar uma coisa dessas. Engoliu a seco e foi encher a cara de champanhe na sua festa.   

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Romance Roubado

(Parte da Antologia “O escritor que nunca viu e outras histórias”)

- Posso confiar em você, não posso?

- Claro que pode. Tudo o que me disser será retratado no livro com nomes alterados. A não ser que você conte a alguém, a sua identidade será preservada.

- Quero ter essa memória registrada. Não me pergunte por que, mas eu preciso saber que o que aconteceu comigo será lido por outras pessoas. Que as minhas lembranças não morrerão comigo. Mas não quero magoar ninguém.

Aquela era uma oportunidade de ouro para Carlos. Há anos estava procurando uma boa história para escrever um romance. E aquele senhor idoso, que passava seus dias e boa parte das noites desenhando no banco do aeroporto internacional do Rio, certamente tinha algo de muito interessante para contar.

- Podemos começar a gravar então?

- Sim, claro. Você quer um café? Eu penso melhor quando estou tomando café.

- Eu aceito sim. Obrigado por me convidar para conversar na sua casa.

- Que nada, meu filho. Eu nunca recebo ninguém. A casa é simples, mas é um prazer receber gente aqui.

E era uma casa simples mesmo, no final de uma vila que resistia bravamente a expansão imobiliária da zona sul no Rio. Muitas fotos por todo o lugar, a maior parte já amareladas pelo tempo, de uma mulher muito bonita.

- Ela era muito especial. Eu guardo na memória todos os traços do seu rosto, o perfume, o som da risada... Conheci aqui no Rio mesmo. Foi tudo muito rápido e intenso.

- É o rosto que você desenha todos os dias no aeroporto, não é?

- Sim. Foi o último lugar aonde nos vimos. Ela foi para se acertar com o marido, se separar dele legalmente e voltar para vivermos juntos. Mas ela nunca voltou. Eu quase enlouqueci. Viajei para a Alemanha, procurei a polícia, espalhei cartazes, tudo... É como se ela nunca tivesse existido. Se não tivesse todas essas fotografias eu pensaria que ela foi uma ilusão.

- Como vocês se conheceram?

- Na praia de Copacabana. Eu estava sentado na areia num final de tarde, pensando em como a minha vida era chata, monótona, fria. Ela surgiu na minha frente e simplesmente perguntou se poderia sentar ao meu lado para olhar o mar. Linda. Eu devo ter demorado alguns minutos até responder alguma coisa a ela.

Carlos olhou novamente para o porta-retratos que estava na mesa ao lado. Queria lembrar exatamente daquele rosto. Ela dava uma personagem e tanto. Parecia ser alta, cabelos longos e ruivos, rosto de traços fortes. Poderia ser uma espiã daqueles filmes de Hollywood. Sedutora e perigosa. O livro seria um suspense. Quem é essa mulher misteriosa?

- Eu deixei tudo para ficar com ela. Larguei minha mulher, minha casa, meus filhos, tudo! Durante dois meses eu vivi o que jamais imaginei existir na vida real. Ela invadiu a minha vida. E eu tinha certeza de que jamais me arrependeria de nada se estivesse do lado dela.

- O que ela fazia no Brasil?

- Ela disse que queria ser livre, conhecer o mundo, tinha recebido uma herança dos pais e que com ela poderia se separar com segurança do marido. Antes de vir ao Brasil tinha passado por outros países. Mas disse que se apaixonou por mim. Queria que eu a seguisse pelo mundo.

Um romance. Escreveria sobre esse amor incrível, apaixonado, louco. Um homem comum, apaixonado por uma mulher sedutora, que vê sua vida organizada e pacífica transformada de uma hora para outra por essa paixão.

- Mas ela precisou voltar antes para a Alemanha.

- Sim. Ela disse que precisava se separar de vez. Resolver alguns detalhes de bens que tinha. Mas disse que voltaria. E eu fiquei esperando. Nunca mais recebi notícias. Imaginei que ela tivesse sido morta pelo marido, por isso fui até lá procurar por ela na cidade onde disse que morava. Jamais encontrei nenhum sinal dela. O nome que eu tinha não existia em nenhum cartório. Nada. Ela desapareceu. Mas nunca da minha mente. Eu não conseguia mais dormir, comer, trabalhar...

- E a sua família? Eles sabiam do que tinha acontecido?

- A minha ex-mulher sim. Eu contei tudo a ela. Eu saí de casa para alugar um apartamento para a minha vida nova. Ficaríamos mais um ano no Brasil, eu venderia a minha empresa e depois seríamos livres pelo mundo. Eu fui egoísta, insensível... Mas estava totalmente drogado pela paixão.

Um drama. Um homem arrependido, sofrendo a perda de tudo o que levou a vida inteira para construir. Os dias que se seguiram depois que ela se foi. O sofrimento, as alucinações e pensamentos que levariam o personagem ao fundo do poço, a tentativa de suicídio, a loucura real. Carlos podia sentir as lágrimas das leitoras mais sensíveis rolando pelas páginas do seu livro.

- Com raiva, a minha ex-mulher nunca me deixou ficar próximo dos meus filhos. São dois. Ela disse a eles que eu tinha morrido. E eu acho que morri mesmo. Não tinha forças para brigar com ela. Também não queria que me vissem como fiquei. Durante os anos que se seguiram, eu me transformei aos poucos em um mendigo fedorento. Bebia todos os dias até esquecer quem eu era, onde estava. Acordava frequentemente em algum banco por aí.

- Como você saiu dessa?

- Meu filho me encontrou. O mais velho. Ele descobriu que eu não tinha morrido e me procurou. Já tinham se passado 20 anos. Ele me perdoou, mas ainda estamos nos conhecendo melhor. Eu resolvi tentar de novo recuperar parte da minha dignidade. Por ele. Devo isso a eles. Mas minha obsessão por ela não terminará nunca. Desenho o rosto dela pelo menos uma vez por dia e deixo nos bancos do aeroporto. Deixo a imagem dela onde ela me deixou, e volto para tentar retomar a minha vida do ponto onde ela me invadiu.

Auto Ajuda? Hmmm... Melhor não.

- Quer mais um café, meu filho?

- Não, obrigado. O senhor está se sentindo bem?

Carlos percebeu que o homem tremia bastante. Estava muito pálido. Começou a apresentar sinais de que não conseguia mais falar direito.

- Acho melhor chamar uma ambulância!

Carlos abriu a porta da casa, chamou os vizinhos. Vários vieram correndo ver o que estava acontecendo. Enquanto ligava para uma ambulância, várias pessoas falavam ao mesmo tempo dentro da casa. Uns pegavam um copo de água, outros deitavam o senhor no sofá. Quando a ambulância chegou já era tarde demais. Ele já estava morto.

Um vizinho telefonou para o filho, que chegou rapidamente na casa. Carlos observou o desespero do rapaz, que sacudia o pai como se ele estivesse apenas dormindo. Falava frases soltas entrecortadas pelo soluço. "Você me deve explicações", "Não pode sumir de novo assim", "Isso não pode ter acontecido". Pensou em dizer algo, talvez tentar consolar o rapaz. Mas preferiu se afastar.

Olhou novamente a foto da mulher misteriosa. Retirou-a discretamente do porta-retratos. Precisava levar com ele aquela foto. Aquele olhar desafiador seria a inspiração para aquele romance/drama/mistério que ele iria escrever. Já tinha tudo resolvido na sua cabeça. Mesmo que não conseguisse uma editora grande, publicaria ele mesmo aquela história.


Era uma história que precisava ser contada. Devia isso ao defunto.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Com os Cegos do Castelo...


Foi uma música que o despertou do sono profundo e quase eterno. Estava hipnotizado pelo balanço do metrô, quando no seu Ipod tocou "Não vou me adaptar" na voz do Nando Reis. Voltou algumas vezes para ouvir a letra novamente. Prestar atenção em cada frase. Tudo verdade...

Teve vontade de cantar junto, mas não gostava de parecer um maluco falando sozinho. "NÃO VOU ME ADAPTAR!!!" Ele queria mesmo era gritar. Cantar seria muito pouco. O trem chegou na estação. Saltou no meio da multidão de zumbis rumo ao trabalho incomodado com o fato dos seus pés seguirem o caminho de forma automática. Sentiu-se o coelho da Alice - tô com pressa, tô com pressa. Tinha compromissos naquele dia. Certamente nada que será relevante quando lembrar daqui a 30 anos. Já não sabia bem o que é ser isso, mas passou a vida tentando fazer com que acreditassem que era uma pessoa responsável.

"Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia" e sabe-se lá porque se esforçava tanto em fingir que a qualquer momento isso poderia ser modificado. Nem sabia ao certo se queria tanto assim. "Eu não encho mais a casa de alegria" porque andava tão cansado e de saco cheio de ter sempre os mesmos velhos planos não realizados que acabava não curtindo nada. Deixava para outros a tarefa de alegrar os ambientes por onde passava.

"Os anos se passaram enquanto eu dormia" e eles não voltariam mais. "Eu não vou me adaptar". Ele queria muito, mas não conseguiria.

Ele chegou ao trabalho ainda tonto. Um tanto pela noite mal dormida, outro pela confusão mental que começou ao prestar atenção nas letras das músicas durante o trajeto. Quando sentou-se na mesa, parecia que tinha aterrisado no seu corpo naquele instante. Já não lembrava o que tinha que fazer de tão importante.

Pegou novamente o ipod, selecionou a próxima música da lista. "Cegos do Castelo". Os emails pipocavam enquanto ele fitava a tela do computador mudo. "Eu não quero mais mentir". Nando Reis sabia dos seus segredos. Tinha escito aquela também pra ele. "Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu" mas agora era tarde demais. Ela chegaria a qualquer momento. Ele não saberia mais fingir que nada estava acontecendo.

"E se você puder me olhar" vai ver a quanto tempo desejo que você saiba quem eu sou. E não poderei mais ficar aqui. NY estava particularmente fria naquela manhã. Detestava a neve. Não tinha mais a mesma graça de quando chegou do Brasil. A novidade derreteu junto com o gelo e o seu casamento. Ambos viraram lama. Ela voltou para o calor do Rio. Ele insistiu em ficar e tentar. E tudo ia muito bem, até descobrir que não conseguiria mais esconder que tinha se apaixonado de novo.

Ela faria mil pedaços dele. Ele seria o seu cachorrinho. "Eu cuidarei do seu jantar", da sua cama, dos seus desejos. "Se você quiser me achar" ele não resistiria. Ele iria cuidar.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Foto

Reencontros de velhos amigos de escola deveriam ser momentos maravilhosos. Colocar décadas de assunto em dia, ver como certas características que você tanto amava naquele amigão de infância não desapareceram com a maturidade, sentir-se novamente parte de uma turma... Mas para Júlia aquele tão esperado momento glorioso virou pesadelo quando pediram uma foto para colocar no "Livro do Reencontro". Péssima idéia.

Revirou todos os arquivos de fotos. Todos os álbuns, reais e virtuais. Enquanto procurava chocou-se com uma realidade que a pressa diária diante do espelho não permitia observar em detalhes: as bolsas debaixo dos olhos, o cabelo pouco brilhoso, o excesso de peso, as rugas de expressão que saltavam dos dois lados da boca quando estava séria e em volta dos olhos quando sorria. Passou a odiar fotos.

Lamentou não ter um amigo que soubesse manipular alguma, como fazem com as modelos nas capas das revistas. Um lifting virtual cairia muito bem agora. Mas de que adiantaria? Aquela era a realidade. O Photoshop poderia retirar alguns quilos, manchas da pele, bolsas dos olhos. Mas haveria o encontro real, cara a cara, rugas com rugas. E nesse não tinha como esconder nada daquilo.

"Melhor deixar a foto para depois" - pensou. Foi em direção ao armário para a próxima tortura. A roupa. O que vestir no dia. Estava um calor sub-saariano, desumano naquela semana. Nada do que tinha no armário esconderia seus braços mega roliços sem fazer com que suasse por todos os poros. A maquiagem escorreria antes que pudesse dizer o primeiro "Olá! Nossa, você não mudou nada!". Saber mentir nesses momentos seria fundamental. Acalmou-se pensando que certamente todas as suas amigas estariam com o mesmo dilema. Pelo menos as casadas e com filhos como ela. Casamento engorda. Só as solteiras conseguem se manter magras. É um fato da vida.

O sapato e a bolsa já estavam escolhidos. Eram a única certeza que tinha para aquele encontro. Tinha uma coleção infinita de pares super caros e maravilhosos. Sapatos não reclamam se você está gorda e velha. Talvez seja por isso que as mulheres gostam tanto de comprá-los. E as bolsas dizem muito sobre a sua personalidade. Ao olhar uma bolsa de outra mulher na rua Júlia poderia dizer sua profissão, idade, classe social, estado civil, desejos, ambições... Desenvolveu toda uma teoria sobre o assunto. As amigas viviam dizendo que deveria escrever um livro. Para aquele encontro usaria Donna Karan. Moderna, independente e arrojada. Conseguiria esconder toda a sua insegurança com aquela bolsa maravilhosa.

Ainda estava perturbada com a foto. Não podia ser assim tão difícil. Suas melhores fotos, ou as menos piores, eram as que tirava abraçando ou brincando com os filhos. Eles iluminavam aquelas fotos com alegria e docura. De repente, junto com a família, suas rugas de expressão não pareciam assim tão deprimentes. Eram a consequência de muitas gargalhadas com cada novidade que eles traziam depois da escola. As bolsas debaixo dos olhos diziam que era uma mãe dedicada, que jamais conseguia dormir quando um deles estava gripado ou com febre. Seu peso era o resultado da culpa que sentiria todas as vezes em que deixasse de chegar em casa mais cedo do trabalho para ir a academia.

Queria estar mais bonita, mais jovem e mais parecida com o que já foi para ir a esse encontro. Começaria uma dieta na segunda, iria ao salão fazer uma hidratação no cabelo, limpeza de pele, faria as unhas e compraria uma roupa nova para ir a esse encontro. Tinha certeza que depois de 10 minutos na festa esqueceria por completo de todos aqueles incômodos.

Queria apenas ter encontrado uma foto que mostrasse por fora a satisfação e orgulho que sentia pelo que era por dentro e pelas coisas que conquistou durante os anos...

Foi com um sorriso nos lábios que escolheu a foto. Foi tirada no último aniversário da sua filha mais velha. Estavam todos na mesa do bolo. Sorrisos calóricos, cabelos despenteados e muitas, muitas rugas de felicidade.