Reencontros de velhos amigos de escola deveriam ser momentos maravilhosos. Colocar décadas de assunto em dia, ver como certas características que você tanto amava naquele amigão de infância não desapareceram com a maturidade, sentir-se novamente parte de uma turma... Mas para Júlia aquele tão esperado momento glorioso virou pesadelo quando pediram uma foto para colocar no "Livro do Reencontro". Péssima idéia.
Revirou todos os arquivos de fotos. Todos os álbuns, reais e virtuais. Enquanto procurava chocou-se com uma realidade que a pressa diária diante do espelho não permitia observar em detalhes: as bolsas debaixo dos olhos, o cabelo pouco brilhoso, o excesso de peso, as rugas de expressão que saltavam dos dois lados da boca quando estava séria e em volta dos olhos quando sorria. Passou a odiar fotos.
Lamentou não ter um amigo que soubesse manipular alguma, como fazem com as modelos nas capas das revistas. Um lifting virtual cairia muito bem agora. Mas de que adiantaria? Aquela era a realidade. O Photoshop poderia retirar alguns quilos, manchas da pele, bolsas dos olhos. Mas haveria o encontro real, cara a cara, rugas com rugas. E nesse não tinha como esconder nada daquilo.
"Melhor deixar a foto para depois" - pensou. Foi em direção ao armário para a próxima tortura. A roupa. O que vestir no dia. Estava um calor sub-saariano, desumano naquela semana. Nada do que tinha no armário esconderia seus braços mega roliços sem fazer com que suasse por todos os poros. A maquiagem escorreria antes que pudesse dizer o primeiro "Olá! Nossa, você não mudou nada!". Saber mentir nesses momentos seria fundamental. Acalmou-se pensando que certamente todas as suas amigas estariam com o mesmo dilema. Pelo menos as casadas e com filhos como ela. Casamento engorda. Só as solteiras conseguem se manter magras. É um fato da vida.
O sapato e a bolsa já estavam escolhidos. Eram a única certeza que tinha para aquele encontro. Tinha uma coleção infinita de pares super caros e maravilhosos. Sapatos não reclamam se você está gorda e velha. Talvez seja por isso que as mulheres gostam tanto de comprá-los. E as bolsas dizem muito sobre a sua personalidade. Ao olhar uma bolsa de outra mulher na rua Júlia poderia dizer sua profissão, idade, classe social, estado civil, desejos, ambições... Desenvolveu toda uma teoria sobre o assunto. As amigas viviam dizendo que deveria escrever um livro. Para aquele encontro usaria Donna Karan. Moderna, independente e arrojada. Conseguiria esconder toda a sua insegurança com aquela bolsa maravilhosa.
Ainda estava perturbada com a foto. Não podia ser assim tão difícil. Suas melhores fotos, ou as menos piores, eram as que tirava abraçando ou brincando com os filhos. Eles iluminavam aquelas fotos com alegria e docura. De repente, junto com a família, suas rugas de expressão não pareciam assim tão deprimentes. Eram a consequência de muitas gargalhadas com cada novidade que eles traziam depois da escola. As bolsas debaixo dos olhos diziam que era uma mãe dedicada, que jamais conseguia dormir quando um deles estava gripado ou com febre. Seu peso era o resultado da culpa que sentiria todas as vezes em que deixasse de chegar em casa mais cedo do trabalho para ir a academia.
Queria estar mais bonita, mais jovem e mais parecida com o que já foi para ir a esse encontro. Começaria uma dieta na segunda, iria ao salão fazer uma hidratação no cabelo, limpeza de pele, faria as unhas e compraria uma roupa nova para ir a esse encontro. Tinha certeza que depois de 10 minutos na festa esqueceria por completo de todos aqueles incômodos.
Queria apenas ter encontrado uma foto que mostrasse por fora a satisfação e orgulho que sentia pelo que era por dentro e pelas coisas que conquistou durante os anos...
Foi com um sorriso nos lábios que escolheu a foto. Foi tirada no último aniversário da sua filha mais velha. Estavam todos na mesa do bolo. Sorrisos calóricos, cabelos despenteados e muitas, muitas rugas de felicidade.
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