Era o dia do seu
aniversário. Tinha planejado dormir até tarde mas teve seus planos
interrompidos pelo barulho desagradável do interfone.
- Tem entrega aqui pra
senhora.
- Entrega de que?
- Sei não senhora. Uma caixa
grande mesmo. Pode subir?
- Claro que não. Não sei
quem é. Deixa aí que eu pego quando sair mais tarde.
- Não dá não. A caixa é
grande.
- Então coloca no elevador e
aperta o número do meu andar. Eu pego aqui.
Não queria descer de
camisola e não estava com a menor vontade de trocar de roupa tão cedo. Apesar de
ter acordado antes da hora, foi agradável ver pela janela que o dia prometia
ser de sol. Colocou o roupão e foi para a porta do elevador esperar o tal presente.
Quando o elevador chegou
tomou um susto. Era realmente uma enorme caixa vermelha, com um laço de fitas
lindo em cima. Estava esperando algo mais convencional, como uma cesta de café
da manhã. Mas aquela caixa fazia promessas. Levou correndo para dentro de casa.
Olhou por alguns segundos
antes de desfazer o laço. Duvidou que seu namorado pudesse enviar um presente
daqueles. Teve certeza quando encontrou o cartão: “Não vejo a hora de te
encontrar hoje a noite. Você é inesquecível.”. Maurinho estava na Europa
fazendo um curso a dois meses e sua volta só estava prevista para duas semanas
depois. Não era dele. Tinham se falado pelo computador na noite anterior. Ele
fez questão de dar parabéns a ela a meia noite. Gesto carinhoso apesar de ela
desconfiar que ele quisesse mesmo era saber se ela estaria em casa de noite ou
não. Inútil. Ela saiu logo depois com suas amigas de infância, que jamais
deixariam que ela ficasse em casa justo na noite do aniversário. E sempre saiam
depois da meia noite, porque aniversário a gente comemora no próprio dia,
independentemente do dia da semana.
Dentro da caixa tinham uma
garrafa de champagne com duas taças, uma caixa de bombons finos, uma peruca ruiva,
lingerie fina vermelha, uma capa bege daquelas de filme noir francês e um
aparelho de GPS. Era um convite muito bem elaborado. Quando ligou o aparelho,
ele indicava direitinho o local onde deveria ir. Já estava tudo programado. Uma
mensagem dizia o horário em que deveria chegar: 21:48 da noite. Quem marca um
encontro num horário quebrado desses?
Ficou olhando para a caixa e
pensando se não deveria simplesmente guardar os objetos para uma festinha
particular quando o Maurinho voltasse. Mas a curiosidade era muito grande para
saber o que tinha lá nesse lugar. Algum tarado pervertido a esperava
certamente, vestindo apenas a peruca, roupa de baixo e a tal capa. Achou a
idéia maravilhosa. Certamente seu namorado jamais pensaria em algo assim, tão
instigante. Ele não era chegado a fetiches. Nem para lingerie muito sofisticada
ele dava muita bola.
- O que importa é o recheio, meu amor. Não dou a mínima
se você está vestindo calcinha bege ou cinta-liga, desde que saia o mais rápido
possível para eu ver o que tem embaixo.
Ele tinha outras frases
clássicas também que deixavam Cíntia maluca.
- Quando investem muito na alegoria é porque o samba
enredo é fraco.
O que ele queria dizer com
isso? Com o tempo ela se acostumou e passou até a gostar da forma simples e
direta dele. Mas aquela caixa era uma escola de samba inteira, todos os fetiches
juntos. Resolveu ligar para uma amiga para deixar as coordenadas. Se ela não
ligasse até às onze da noite para dizer que estava tudo bem, ela podia chamar a
polícia e mandar começar as buscas.
- Você não pode ir sozinha. E se lá nesse lugar tiver um
maníaco, um tarado, um serial killer?
- Ele tem estilo pelo menos. A garrafa que ele mandou
custa mais de dois mil reais. Eu pesquisei na Internet.
- Cíntia, você já é grande e vacinada. Não vou ficar aqui
te colocando medo, até porque estou morrendo de curiosidade que nem você. Mas
já pensou no caso do cara na hora que abrir a porta ver que não é a mulher que
ele convidou e bater a porta na sua cara? Pior! Mandar você devolver tudo,
lingerie, capa, peruca, e mandar você voltar pra casa pelada da silva? Pensa
só!
- Tá bom. Eu vou levar uma roupa extra numa bolsinha.
- Leva dois celulares. Um na bolsinha e outro no bolso da
capa. É daquele estilo Europeu mesmo, amiga? Ai que chique... tira uma foto
antes de sair e me manda!
- Mando sim, Jô. Beijos.
E assim fez Cíntia. Passou o
dia se arrumando para o evento. Foi no salão fazer unhas, cabelo, depilação,
massagem e tudo mais que lembrou que pudesse fazer ela ficar irresistível.
Chegou em casa e se arrumou com a tal peruca ruiva e se maquiou como uma diva
de cinema. Olhou-se no espelho depois de toda arrumada e se sentiu linda e sexy
como nunca. Arrematou com o seu melhor perfume e saiu para pegar o carro. Não
se esqueceu de levar a garrafa de champanhe e as duas taças na maletinha chique
em que vieram e uma bolsinha de mão charmosa com um vestido minúsculo e
calcinha para o caso de ser expulsa pelada!
-
Esse carro aí é da Dona Cíntia, moça! – gritou o garagista quando viu a ruiva
abrir o carro na garagem.
- Sou eu, Zé!
- Dona Cíntia?
- Estou indo a uma festa a fantasia. Abre logo a porta da
garagem. Estou com pressa.
Nunca tinha dirigido com GPS
ligado e achou um tanto irritante ter que ficar seguindo instruções de uma
máquina para dirigir. Lembrava muito o seu pai quando começou a dirigir o carro
dele logo que tirou carteira.
- Tá chegando. É pra virar a direita. Reduz. Tá rápido.
Tá chegando. Reduz, filha!
- Eu tô reduzindo! Que irritante!
- Porque você tem que frear tão em cima do carro da
frente!
- Argh!
Lembrar do pai não foi uma
boa coisa naquele momento. Ficou pensando no que ele falaria se soubesse que a
filha estava vestida de puta naquela hora da noite, durante a semana, para ir
ao encontro de um possível psicótico maníaco. Pensou em voltar, mas jamais
conseguiria dormir novamente com a dúvida. Tinha que descobrir quem era aquele
cara.
Chegou ao local às 21:37.
Era a portaria de um prédio de luxo. Estranhou quando o segurança do local
retirou um cone da calçada e disse que a vaga estava reservada para ela. Bem em
frente ao prédio.
- Espere um pouco no carro. Ainda faltam uns 10 minutos
para a senhora poder entrar.
O frio na barriga ia
aumentando. Ele deveria ser como aquele ator do filme “Proposta Indecente”, um
milionário mimado. No filme pelo menos a atriz topava o programa por um milhão
de dólares. Ela estava indo de graça, só pela aventura.
“Nossa! Minha vida deve estar mesmo um tédio de doer para
eu topar uma coisa dessas.” – pensou Cíntia.
Já estava novamente pensando
em voltar para casa, ligando o carro quando o mesmo segurança se
aproximou e disse que ela já poderia entrar no prédio.
- Cobertura, Senhorita. Pode subir.
Entrou no elevador olhando
para baixo, com vergonha de ser reconhecida por alguém. Depois pensou que
talvez fosse bom olhar bem diretamente para alguma câmera para o caso de ser
morta e alguém tentar reconhecer ela pelas imagens.
Ficou parada por alguns
segundos na frente da porta do apartamento. Respirou fundo. Olhou no relógio de
pulso. Estava pontualmente no local designado. Resolveu tirar o relógio e
colocar na bolsa. Não combinava com a lingerie. Tocou a campanhia.
O silêncio absoluto vindo de
dentro do apartamento comia Cíntia por dentro. O que deveria esperar? Um homem
alto, elegante e sexy, abrindo a porta com cara de “Eu te quero agora”, babando
de desejo por ela. Seria paixão a primeira vista. Uma despedida da vida de
solteira em grande estilo. A maçaneta girou e...
- SURPRESAAAAAA!!!!!!!
“Filhos da Puta...” – pensou. Mas não falou. Apenas
sorriu e fez cara de esperta do tipo “Eu imaginei!”. Mas não tinha nem chegado
perto de imaginar uma coisa dessas. Engoliu a seco e foi encher a cara de
champanhe na sua festa.
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