domingo, 2 de fevereiro de 2014

Romance Roubado

(Parte da Antologia “O escritor que nunca viu e outras histórias”)

- Posso confiar em você, não posso?

- Claro que pode. Tudo o que me disser será retratado no livro com nomes alterados. A não ser que você conte a alguém, a sua identidade será preservada.

- Quero ter essa memória registrada. Não me pergunte por que, mas eu preciso saber que o que aconteceu comigo será lido por outras pessoas. Que as minhas lembranças não morrerão comigo. Mas não quero magoar ninguém.

Aquela era uma oportunidade de ouro para Carlos. Há anos estava procurando uma boa história para escrever um romance. E aquele senhor idoso, que passava seus dias e boa parte das noites desenhando no banco do aeroporto internacional do Rio, certamente tinha algo de muito interessante para contar.

- Podemos começar a gravar então?

- Sim, claro. Você quer um café? Eu penso melhor quando estou tomando café.

- Eu aceito sim. Obrigado por me convidar para conversar na sua casa.

- Que nada, meu filho. Eu nunca recebo ninguém. A casa é simples, mas é um prazer receber gente aqui.

E era uma casa simples mesmo, no final de uma vila que resistia bravamente a expansão imobiliária da zona sul no Rio. Muitas fotos por todo o lugar, a maior parte já amareladas pelo tempo, de uma mulher muito bonita.

- Ela era muito especial. Eu guardo na memória todos os traços do seu rosto, o perfume, o som da risada... Conheci aqui no Rio mesmo. Foi tudo muito rápido e intenso.

- É o rosto que você desenha todos os dias no aeroporto, não é?

- Sim. Foi o último lugar aonde nos vimos. Ela foi para se acertar com o marido, se separar dele legalmente e voltar para vivermos juntos. Mas ela nunca voltou. Eu quase enlouqueci. Viajei para a Alemanha, procurei a polícia, espalhei cartazes, tudo... É como se ela nunca tivesse existido. Se não tivesse todas essas fotografias eu pensaria que ela foi uma ilusão.

- Como vocês se conheceram?

- Na praia de Copacabana. Eu estava sentado na areia num final de tarde, pensando em como a minha vida era chata, monótona, fria. Ela surgiu na minha frente e simplesmente perguntou se poderia sentar ao meu lado para olhar o mar. Linda. Eu devo ter demorado alguns minutos até responder alguma coisa a ela.

Carlos olhou novamente para o porta-retratos que estava na mesa ao lado. Queria lembrar exatamente daquele rosto. Ela dava uma personagem e tanto. Parecia ser alta, cabelos longos e ruivos, rosto de traços fortes. Poderia ser uma espiã daqueles filmes de Hollywood. Sedutora e perigosa. O livro seria um suspense. Quem é essa mulher misteriosa?

- Eu deixei tudo para ficar com ela. Larguei minha mulher, minha casa, meus filhos, tudo! Durante dois meses eu vivi o que jamais imaginei existir na vida real. Ela invadiu a minha vida. E eu tinha certeza de que jamais me arrependeria de nada se estivesse do lado dela.

- O que ela fazia no Brasil?

- Ela disse que queria ser livre, conhecer o mundo, tinha recebido uma herança dos pais e que com ela poderia se separar com segurança do marido. Antes de vir ao Brasil tinha passado por outros países. Mas disse que se apaixonou por mim. Queria que eu a seguisse pelo mundo.

Um romance. Escreveria sobre esse amor incrível, apaixonado, louco. Um homem comum, apaixonado por uma mulher sedutora, que vê sua vida organizada e pacífica transformada de uma hora para outra por essa paixão.

- Mas ela precisou voltar antes para a Alemanha.

- Sim. Ela disse que precisava se separar de vez. Resolver alguns detalhes de bens que tinha. Mas disse que voltaria. E eu fiquei esperando. Nunca mais recebi notícias. Imaginei que ela tivesse sido morta pelo marido, por isso fui até lá procurar por ela na cidade onde disse que morava. Jamais encontrei nenhum sinal dela. O nome que eu tinha não existia em nenhum cartório. Nada. Ela desapareceu. Mas nunca da minha mente. Eu não conseguia mais dormir, comer, trabalhar...

- E a sua família? Eles sabiam do que tinha acontecido?

- A minha ex-mulher sim. Eu contei tudo a ela. Eu saí de casa para alugar um apartamento para a minha vida nova. Ficaríamos mais um ano no Brasil, eu venderia a minha empresa e depois seríamos livres pelo mundo. Eu fui egoísta, insensível... Mas estava totalmente drogado pela paixão.

Um drama. Um homem arrependido, sofrendo a perda de tudo o que levou a vida inteira para construir. Os dias que se seguiram depois que ela se foi. O sofrimento, as alucinações e pensamentos que levariam o personagem ao fundo do poço, a tentativa de suicídio, a loucura real. Carlos podia sentir as lágrimas das leitoras mais sensíveis rolando pelas páginas do seu livro.

- Com raiva, a minha ex-mulher nunca me deixou ficar próximo dos meus filhos. São dois. Ela disse a eles que eu tinha morrido. E eu acho que morri mesmo. Não tinha forças para brigar com ela. Também não queria que me vissem como fiquei. Durante os anos que se seguiram, eu me transformei aos poucos em um mendigo fedorento. Bebia todos os dias até esquecer quem eu era, onde estava. Acordava frequentemente em algum banco por aí.

- Como você saiu dessa?

- Meu filho me encontrou. O mais velho. Ele descobriu que eu não tinha morrido e me procurou. Já tinham se passado 20 anos. Ele me perdoou, mas ainda estamos nos conhecendo melhor. Eu resolvi tentar de novo recuperar parte da minha dignidade. Por ele. Devo isso a eles. Mas minha obsessão por ela não terminará nunca. Desenho o rosto dela pelo menos uma vez por dia e deixo nos bancos do aeroporto. Deixo a imagem dela onde ela me deixou, e volto para tentar retomar a minha vida do ponto onde ela me invadiu.

Auto Ajuda? Hmmm... Melhor não.

- Quer mais um café, meu filho?

- Não, obrigado. O senhor está se sentindo bem?

Carlos percebeu que o homem tremia bastante. Estava muito pálido. Começou a apresentar sinais de que não conseguia mais falar direito.

- Acho melhor chamar uma ambulância!

Carlos abriu a porta da casa, chamou os vizinhos. Vários vieram correndo ver o que estava acontecendo. Enquanto ligava para uma ambulância, várias pessoas falavam ao mesmo tempo dentro da casa. Uns pegavam um copo de água, outros deitavam o senhor no sofá. Quando a ambulância chegou já era tarde demais. Ele já estava morto.

Um vizinho telefonou para o filho, que chegou rapidamente na casa. Carlos observou o desespero do rapaz, que sacudia o pai como se ele estivesse apenas dormindo. Falava frases soltas entrecortadas pelo soluço. "Você me deve explicações", "Não pode sumir de novo assim", "Isso não pode ter acontecido". Pensou em dizer algo, talvez tentar consolar o rapaz. Mas preferiu se afastar.

Olhou novamente a foto da mulher misteriosa. Retirou-a discretamente do porta-retratos. Precisava levar com ele aquela foto. Aquele olhar desafiador seria a inspiração para aquele romance/drama/mistério que ele iria escrever. Já tinha tudo resolvido na sua cabeça. Mesmo que não conseguisse uma editora grande, publicaria ele mesmo aquela história.


Era uma história que precisava ser contada. Devia isso ao defunto.

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